Secretaria do Mestrado:

sec-mestrado@fumec.br

Pesquisas :::

bandeirinhas mcult

Representações do Autismo no Cinema: Catálogo de Filmes (1969 – 2016)

PROJETO DE PESQUISA: Dimensões do autismo: diagnóstico, tratamentos e marca humana

Este catálogo de filmes sobre o autismo resulta da pesquisa intitulada Dimensões do autismo: diagnóstico, tratamentos e marca humana, coordenada pelo professor Sérgio Laia (Universidade FUMEC, Brasil).
A equipe interdisciplinar  executora do projeto é composta por professores pesquisadores e alunos do mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos e da graduação em Psicologia da Universidade FUMEC (Brasil), e professores pesquisadores da Université de Rennes 2 (França),  Universidad Nacional de Córdoba (Argentina) e  Universidad de Buenos Aires (Argentina). Temos procurado investigar a variedade das manifestações do autismo e as possibilidades de considerá-lo como uma espécie de “marca” dos humanos, que varia em “graus”, mas que seria própria das respostas dadas pelos homens àquilo que afeta seus corpos em termos de satisfação e trauma. Essa pesquisa também se interessa em discernir as possibilidades de constatação e, quando for o caso, os tratamento dessas variações.
Descrito de forma mais clara pelos pesquisadores Leo Kanner (1943) e Hans Asperger (1944), o autismo ficou conhecido, sobretudo, como um transtorno que acarreta dificuldades na interação social dos indivíduos afetados, cujas causas são ainda hoje desconhecidas. Na caracterização do autismo, termos como “encapsulamento”, “isolamento” e “incapacidade comunicativa” são usualmente empregados para representar o estado do sujeito que se encontra nessa condição. Esses termos suscitam ainda imagens que transmitem, de fato, dificuldades para se transpor o desconhecimento, inclusive social, sobre tal transtorno e suas variações que integram o chamado espectro autista.
De maneira geral, são as ausências, sobretudo de reciprocidade nas interações sociais, de habilidades comunicacionais e de variações comportamentais que se destacam na descrição do autismo. Porém, há quem ressalte a sua complexidade, referindo-se a outros aspectos, como fez o neurologista e escritor inglês, Oliver Sacks (1933-2015), ao apontar para a completude como elemento próprio ao autismo, e defini-lo como uma condição existencial, um modo de ser completo e “profundamente diferente…” .
As estatísticas, com algumas variações, mostram que o número de autistas vem aumentando, o que pode estar ligado a fatores como o aprimoramento dos critérios de inclusão no espectro do autismo ou o estímulo à procura de diagnósticos, ocasionado pela maior visibilidade da doença. Com isso, cresce também a demanda por informação, a necessidade de se difundir ainda mais os conhecimentos sobre o autismo, de modo a orientar a população a lidar com quem se encontra na condição de autista.
Na sociedade contemporânea, essas tarefas não dependem somente da mediação da ciência e da medicina, mas de outras instâncias de produção simbólica que participam fortemente na construção de uma linguagem que traga consigo a possibilidade de produção de outras perspectivas para as representações sociais de um tema. Elas podem ser entendidas como construções simbólicas que orientam os posicionamentos que adotamos em relação a aspectos da realidade social. Inseridas em um conjunto de relações sociais, organizam a definição, a explicação e a classificação de eventos, grupos, identidades e práticas sociais.
Cada vez mais, hoje, a criação e a difusão das representações sociais passaram a contar com o apoio fundamental da mídia, cuja presença está disseminada em praticamente todas as dimensões de nossas sociedades. Nesse contexto, as observações que fizemos até aqui provocaram outra questão na pesquisa em curso, relacionada às representações sociais midiáticas do autismo, sobretudo aquelas produzidas pelo cinema.

Promotora fundamental da expansão da cultura de massa no século XX, a mídia contribuiu decisivamente para grandes mudanças nos modos pelos quais indivíduos e grupos formam suas “visões de mundo”, a diversidade de seus “modos de vida” e seus vínculos com classes, gêneros, etnias e sistemas de crenças. Além dos temas já clássicos sobre a diversidade (cor, sexo, meio sociocultural, etc.), outras referências também têm despertado a atenção dos meios de comunicação, como é o caso das “doenças” em geral, “distúrbios cognitivos” ou “comportamentais” e “transtornos mentais” como o autismo.

Assim, nossa pesquisa passou a incluir a análise de produções cinematográfico-audiovisuais sobre autismo, por considerar que elas registram, interpretam, reelaboram e disseminam problemáticas ligadas ao tema, assumindo um papel fundamental no processo de construção de representações sociais, na difusão cultural e na inserção social do que é considerado, pelo menos a princípio, estranho, incomum, diferente.

O interesse em incluir a análise de vídeos/filmes relacionados ao tema do autismo nesta investigação ainda em curso dá sequência aos estudos que duas professoras-pesquisadoras componentes de sua equipe (Astréia Soares Batista e Maria Cristina Leite Peixoto) têm realizado sobre as representações audiovisuais da diversidade ·. Considerando o quanto é relevante a temática da diversidade para o mundo contemporâneo e o papel da mídia na formação do imaginário social, das identidades e representações coletivas, essa inclusão se justifica por analisar o conteúdo de filmes que, ao serem vistos, integram o conjunto de referências que orientam as pessoas a pensar sobre a diversidade humana, formar opiniões sobre ela, e a orientar seus procedimentos nas interações sociais.
Assim, precedendo a análise das representações fílmicas do autismo, foi construído o catálogo que apresentamos, composto por vídeos/filmes nos quais pessoas diagnosticadas como autistas relatam suas vidas ou têm suas vidas retradas. Além de criar e disponibilizar aos interessados uma fonte de consulta/pesquisa publicada na Internet, esse material permite fazer novos recortes e auxilia na construção de categorias analíticas dos filmes.
Esse primeiro produto da investigação sobre as representações do autismo no cinema não tem a pretensão de contemplar todo o universo de produções sobre o assunto, mas sim identificar a variedade suficiente de representações fílmicas sobre o espectro do autismo, bem como as recorrências e inovações nelas presentes. Para a identificação dos filmes constantes no catálogo, optou-se pela busca no Google dos termos “filmes sobre autismo”.
Tal recurso pareceu adequado, na medida em que o aumento do uso da Internet como mediadora no processo de conhecimento/obtenção de informações faz dos filmes nela disponibilizados um material de referência socialmente importante; o acesso a filmes lançados em diferentes períodos e lugares permite a adoção de uma perspectiva histórico-comparativa para discernir, ao longo das últimas décadas, como o autismo tem sido abordado no tempo e no espaço, bem como inferir sobre as variáveis contextuais mais importantes para a análise dessas modificações e seus efeitos possíveis na memória coletiva; propicia o acesso a imagens, sons, vídeos, textos etc., ampliando a percepção dos elementos formadores de representações; constitui-se como uma nova e ampliada forma de visibilidade e distribuição audiovisual, com potencial multiplicador inestimável de acesso aos conteúdos publicados; apresenta-se como local relativamente aberto à inserção de conteúdos, a baixo custo, contando com diversos canais especializados na difusão audiovisual, pagos e gratuitos. Isso faz a internet especialmente atrativa como meio de acesso às produções fílmicas, as quais podem ser gravadas, compartilhadas e reproduzidas em diferentes dispositivos, horários e locais, o que não se aplica às salas de cinema, cujo acesso ainda implica em custos elevados, proibitivos para grande parte da população; pelo acesso a produtos similares ao catálogo, como listas de filmes sobre o autismo, que puderam ser comparadas e auxiliaram na construção do catálogo, permitindo ampliar a variedade de representações em filmes de ficção e documentários.
Após conferência dos dados coletados na primeira busca de filmes na internet, consolidou-se uma lista composta por 102 filmes lançados no período de 1969 a 2016, nos quais o autismo é representado. Eles foram organizados em fichas contendo o título original e em português, data de lançamento, gênero, duração, país, direção, sinopse, repercussão, links relacionados, seguidos por representações gráficas. Isso possibilitou a visualização do panorama relativo à produção fílmica sobre o autismo e das seguintes informações gerais obtidas em uma primeira visada: a) os anos de 1994 e a sequência temporal que vai de 2008 a 2014, com destaque para 2010, são, até o momento atual, os períodos de maior quantidade de lançamentos de filmes sobre autismo; b) os Estados Unidos são os que lançam a maior quantidade de filmes, seguidos, de longe, por Canadá, Índia, Alemanha, Itália e México, todos com cinco lançamentos no período; c) no conjunto dos filmes prevalece o gênero drama.
A análise mais acurada dessas primeiras informações e a o estabelecimento de correlações possíveis entre elas e as representações do autismo, tal como observadas nos filmes analisados, está em curso e será divulgada oportunamente, após a finalização da investigação.
Espera-se que este catálogo possa se converter em uma fonte consulta/pesquisa e sirva de estímulo a novas investigações, bem como de material de apoio à prática pedagógica e à própria atividade cinematográfica, uma vez que, na dimensão coletiva, as consequências das representações midiáticas podem gerar impactos socioculturais variados. Também estimamos que, ao longo de nossa própria pesquisa, ele possa vir a ser revisado, renovado e apresentado em uma nova edição.
Nos filmes sobre o autismo, os diretores têm a chance de apresentar perspectivas novas e surpreendentes, sobretudo para o mundo tido como real, carregado de significados e impregnado de percepções mais convencionais e até mesmo preconceituosas. Com este catálogo de filmes sobre as representações do autismo, procuramos abrir uma porta para instigar a busca pelo conhecimento sobre pessoas diferentes e especiais, cujas histórias podem ensinar muito sobre a vida em sociedade. Esperamos, pois, que este catálogo seja um documento que cumpra sua função temático-organizadora, mas também sirva para despertar uma postura crítica diante das representações generalizadas ou espontâneas sobre o transtorno do espectro autístico, mostrando as diversas nuances desse complexo e enigmático espectro. Com isso, almejamos que ele possa contribuir, mesmo que indiretamente, para o estabelecimento de interações sociais mais respeitosas e inclusivas.
Equipe da pesquisa Dimensões do autismo: diagnóstico, tratamentos e marca humana*
Março de 2017
*Astréia Soares Batista e Maria Cristina Leite Peixoto, integrantes da equipe da pesquisa, foram responsáveis pela organização deste catálogo, com a colaboração dos alunos de Psicologia da Universidade FUMEC (Brasil), Anne Caroline Santos, Julia Rodrigues e Renato Chaves Pirfo.